O útil de cada um ou MÁRIO PEIXOTO por OTACÍLIO MELGAÇO

 

 

 

 

Uma cobra veio à minha cisterna

Num dia escaldante, e eu em pijama por causa do calor,

Beber água.

 

Desci as escadas de jarro na mão

Na sombra funda e estranho odor de grande alfarrobeira negra

E tive de ficar à espera, tive de ficar à espera ali em pé, pois lá estava ela na cisterna antes de mim.

Entrou vinda de uma fenda na parte escura do muro de terra

E desceu, arrastando a frouxidão amarelo-castanha do seu ventre mole sobre o bordo da cisterna de pedra,

E apoiou a garganta no fundo de pedra

E, onde a água gotejara da torneira, numa pequena pureza,

Sorveu com a boca recta,

Bebeu suavemente a água que penetrou por entre as gengivas rectas no longo corpo mole,

Silenciosamente.

 

Alguém chegara à cisterna antes de mim,

E eu, como quem chega em segundo lugar, à espera.

 

Deixou de beber e ergueu a cabeça como faz o gado,

E olhou-me vagamente como faz o gado ao beber,

E fez vibrar a língua bífida de entre os lábios e cismou um instante,

E curvou-se e bebeu um pouco mais,

Um ser castanho-de-terra, dourado-de-terra, vindo das entranhas ardentes da terra,

No dia de Julho siciliano, com o Etna a fumegar.

 

A voz da minha educação disse-me:

É preciso matá-la,

Pois na Sicília as cobras pretas são inocentes, as douradas, venenosas.

 

E vozes em mim disseram: se és homem,

Pega num pau e esmaga-a já, acaba com ela.

 

Mas devo eu confessar como gostei dela?

Como estava contente por ter vindo, qual hóspede tranquilo, beber na minha cisterna

E partir pacífico, apaziguado e sem agradecimentos

Para as entranhas ardentes da terra?

Foi por cobardia que não ousei matá-la?

Foi por perversidade que ansiei falar-lhe?

Foi por humildade que me senti honrado?

E senti-me tão honrado.

 

E, contudo, aquelas vozes:

Se não tivesses medo, matá-la-ias!

 

E era verdade, tinha medo, muito medo,

Mas mais ainda me sentia honrado

Por ela ter buscado a minha hospitalidade,

Vinda da porta negra da secreta terra.

 

Bebeu o que quis

E ergueu a cabeça, sonhadoramente, como quem bebeu,

E fez vibrar a língua como uma noite bífida no ar, tão preta,

Parecendo lamber os lábios,

E olhou à volta para o ar, sem ver, como um deus,

E devagar virou a cabeça,

E devagar, muito devagar, como que três vezes mais em sonho,

Pôs-se a arrastar a lenta linha longa do corpo em curva

E a trepar a rampa em ruínas do meu talude.

 

E, ao introduzir a cabeça naquele buraco horrível,

Ao içar-se lentamente, ajustando os ombros de cobra e entrando mais,

Uma espécie de horror, uma espécie de protesto contra aquela fuga para o horrendo buraco preto,

Aquele penetra deliberado na escuridão, aquele arrastar-se lento para lá,

Apossou-se de mim, agora que ela estava de costas.

 

Olhei à volta, pousei o jarro,

Peguei num pau desajeitado

E atirei-o com estrépito à cisterna.

Penso que não lhe acertou,

Mas, de súbito, a parte dela que ainda não entrara contorceu-se

Em pressa pouco digna,

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Vibrou como um relâmpago e desapareceu

No buraco preto, a fenda de lábios de terra no meu muro

Que eu fiquei fitando fascinado na intensa calma do meio-dia.

 

Arrependi-me logo.

E pensei: que acto torpe, grosseiro e desprezível!

Odiei-me e às vozes da minha maldita educação humana.

 

E pensei no albatroz,

E desejei que regressasse, a minha cobra.

 

Pois de novo me aparecia como um rei,

Como um rei em exílio, deposto no submundo

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"Antes, ele havia levado o roteiro para Humberto Mauro, desejoso de que ele assumisse a direção, mas o diretor de Ganga Bruta parece ter achado a história muito hermética e sugeriu que o próprio Mário o realizasse", diz o biógrafo. Rodado em fins de 1930, Limite estreou em maio de 1931 no cine Capitólio. "Foi um fracasso, pois apenas uns poucos ficaram até o fim da fita", fala. "O terrível é que ele via a sua criação como algo fora do comum, acreditando que provocaria uma revolução, o que não ocorreu, deprimindo-o muito", assegura Castro. "Amigos, como Otávio de Faria, já o haviam advertido de que se tratava de algo para o verdadeiro público do cinema e não para as multidões, mas ele era um homem muito vaidoso e preferiu achar-se um incompreendido." "Avaliando Limite como uma produção fantástica, não conseguiu aceitar a reação negativa que ia de encontro à sua expectativa: mandou a fita para o exterior e nunca mais voltou a vê-la após a première, também por causa do desparecimento das poucas cópias", conta. E quanto ao célebre mistério da real autoria do elogioso artigo Um Filme da América do Sul: de Sua Significação Mundial, que teria sido escrito pelo ídolo de Peixoto, Sergei Eisenstein? "Quem escreveu esse texto, na verdade, foi o próprio Mário, que confessou isso a um amigo muito próximo, que, por sua vez, me contou a história", revela Castro. "Há, aliás, outros artigos e críticas em que ele usou pseudônimos para comentar o seu filme, no espírito do `se não falam de minha obra, falo eu': o próprio Otávio de Faria o estimulava a isso, insistindo para que ele mostrasse esses pontos de vista sobre Limite", afirma o biógrafo (leia o artigo supostamente escrito por Eisenstein e sua história na última página). O filme passou a seguir a sua história e ser, como seu autor, transformado em lenda, em que sempre surgem novos vultos históricos - Orson Welles, Pudovkin, Charles Chaplin, entre tantos outros diretores geniais - que teriam visto (ou talvez tenham mesmo assistido a ele) a criação de Peixoto em algum momento. De certo apenas o esforço hercúleo de recuperação da fita, de fins da década de 50 até 1979, feito por Plínio Sussekind da Rocha e Saulo Pereira de Mello. "Poeta desde os tempos de Limite - Mário escreveu Mundéu, elogiado por Mário de Andrade -, ele se voltou para a literatura, a fim de trabalhar no que ele acreditava que seria a sua maior obra: O Inútil de Cada um (um grande texto, ainda que muito voltado para si), a que dedicou 40 anos de sua vida, com uma vocação proustiana", analisa o pesquisador. "Até esboçou vários roteiros, mas era sempre Limite que transparecia, o mesmo tema da solidão do homem, que só evitou em Salustre", nota. Peixoto até tentou voltar a filmar. "Em 1932, ele queria muito fazer Onde a Terra Acaba, em parceria com Carmen Santos - a prostituta de Limite -, mas por falta de recursos e brigas não o realizou: ela se queixava de que ele sempre mexia em tudo, buscava novos ângulos e queria ter a última palavra e o controle absoluto sobre toda a produção." "Ele era fanático pela perfeição e, mesmo que nunca chegasse a alcançá-la, sempre buscou algo superior à sua capacidade." O cineasta refugiou-se na Mansão do Morcego, mudou-se para Angra dos Reis e morreu, em 1992, muito adoentado, num apartamento em Copacabana. "Não demonstrava rancor contra o mundo e aceitava o seu destino com naturalidade, embora não se possa ter certeza disso, porque se escondia no casulo de sua obra, a única preocupação de sua existência", acredita Castro. "Ele tinha dois lados: um, introvertido, proustiano e solitário; e outro, extrovertido e encantador com seus amigos, coisas que só se descobre lendo seus diários e cartas." "Em especial o chamado Diário do Caderno Verde nº 2 foi escrito para que ele pudesse revelar-se por inteiro, descrevendo seus relacionamentos e seu homossexualismo, um assunto que não quero discutir a fundo, pois ainda há pessoas vivas", conta o biógrafo. "Ele dava vazão a seus impulsos, mas sempre com elegância e discrição, apenas nomeando as pessoas pelas iniciais ou, no caso das cartas, adotando pseudônimos (assinou várias como César ) para ele e para o destinatário", fala. "Mas é possível descobrir algumas identidades, como a de Waldemar Henrique, com quem, pode-se intuir, ele manteve uma relação de natureza bem profunda", diz. "Mas não esgotei o assunto e deixei de ir a fundo em certas questões, porque não me interessam fofocas", avisa. "É importante defender a sua memória, mas não adiantam defesas incondicionais de seu passado: é preciso publicar o seu romance, conhecer a fundo sua obra."
(Carlos Haag, p/F. de São Paulo)

 

O ÚTIL DE CADA UM

 

 

 

ONTOMENAGEIA

 

 

- por  

 

Otacílio Melgaço - 

 

 

M Á R I O  P E I X O T O

 

 

(Poemático compendieto 

a filigranar espectros

de sua Obra)

 

 

A SESTA DE UM FAUNO (ÉCLOGA)

As ninfas, quero-as eu perpetuar.
Tão claro,
Seu encarnado ténue agita-se no ar
A dormir sono fundo.
Amei na fantasia?
A dúvida, massa de antiga noite, finda
Em vário ramo leve e que tornado ainda
No próprio bosque, prova - ó céus! que eu me ofereceia
Por triunfo somente a falta ideal de rosas.

Reflictamos...
ora se as ninfas que tu glosas
A voz figuram só que no sangue possuis!
Fauno, escapa a ilusão de seus olhos azuis
E frios, tal qual fonte em choro: essa a mais casta;
Outra, suspiros só, dizes tu que contrasta
como brisa de ardente dia em teu cabelo!
Oh, não! pelo sereno espasmo frouxo e belo
sufocando em calor a fresca manhã cauta
Água que ali murmure, ela sai desta frauta
Para arvoredos húmidos de acordes; vento
Destes dois tubos pronto a dilatar-se lento
Antes que o som disperse em desolada chuva
É, no distante céu que não tolda uma nuvem,
O visível, sereno sopro mal preciso,
Débil, da inspiração que volve ao Paraíso.

Ó margens dum paul siciliano e calmo
Que à porfia dos sóis devasto palmo a palmo,
Tácito, sob as flores fúlgidas, dizei:
«Que ali colhia as hastes ocas que domei
pelo talento; enquanto em oiro de longínquas
verduras oferecendo ás fontes suas vinhas,
Que no prelúdio lento em que o somo mal se esboça
Tal voo de cisnes, não! de náiades fugindo
Ou mergulhando...»

Inerte, arde o ar refulgindo
sem mostrar como assim também de dissipara
demasiado himeneu que afinando eu buscara:
Então foi que durgi no primitivo amor,
Erecto e só, banhado em ondas de esplendor,
Lírio! era um de vós pela ingenuidade.

Além do doce nada em seus lábios mostrando,
O beijo, que suave as pérfidas segura,
Meu peito imaculado atesta mordedura
Misteriosa, deu-a um sobre-humano dente.
Mas, basta! arcano tal elegeu confidente
O junco vasto e gémeo a gemer sob o azul:
Que, recebendo em si da face o som exul,
Sonha, em solo longo, que eu divertia pos
A beleza em redor, plas nossas confusões
Falsas entre si própria e essa canção primeva;
Fazendo lá no alto onde o amor se eleva
dissipar-se do sono de costas ou melhor
Só de flanco, seguida em olhares de torpo,
Uma sonora, leve e monótona linha.

Faze então, instrumento das fugas, ó malgina
Siringe, faze tu por tornares a florir!
Eu, vaidoso do so, falarei sem sentir
Das deusas; e mercê de idolátricas tintas,
À sua sombra ainda irei roubar mais cintas:
Tal qual quando a sugar das uvas a luz clara,
Prà saudade exilar, que em disfarce afastara,
Eu, rindo, ergo prò céu de estio a cacho isento
Eu, soprando nas peles luminosas, sedento
De enlevo, até à noite espreito através delas.

Ó ninfas, enfunai desta memória s velas.
«Plos juncos, meu olhar trespassava brancores
Imortais, que afogavam na água seus ardores
Dando gritos de raiva ao céu da mata brava;
Dos cabelos se o banho esplêndido ocultava
Nas claridades e tremores, ó pedrarias!
Corro então: a meus pés, se entrelaçam (doridas
Desse langor que vem do mal de serem duas)
Dos braços no acaso um par que dormem nuas;
Sem separá-las, fujo e nos meus braços levo-as
Para essa moita além, que enjeitaram as névoas,
De rosas esgotando o perfume do sol,
Onde o prazer ao dia esvaído se enrole».
Adoro-te, furor das virgens, ó delícia
Feroz do fardo nu deslizante, carícia
Que a fugir de meu lábio em fogo, qual lampejo,
Estemece! dum tremor secreto do desejo:
Dos pés da desumana ao coração da tímida
Que abandona de vez uma inocência, húmida
De tontas lágrimas ou vapores mais ledos.

«Meu crime, foi de ter, vencedor de seus medos
Traidores, dividido o grupo esbaforido
De beijos, que algum deus guardava confundido:
Pois apenas tentei esconder um riso insano
No regaço feliz duma delas (pegando
Num dedod só, por que sua candura alada
Se perturbasse ao ver sua irmã desvairada,
Da mais pequena, ingénua e ainda sem corar)
Dos frouxos braços meus dum vago desmaiar,
Essa presa cruel e ingrata se liberta
Sem cuidar do tremor que em meu peito desperta».
Que importa!Outras virão em que o prazer encontre,
De trança que se enrole aos cornos desta fronte:
Sabes, minha paixão, que rubra e já madura,
Toda a romã se entreabre e de abelhas murmura;
Enosso sangue a arder por quem no tem num beijo,
Dá-se em torrente, enxame eterno do desejo.
À hora em que este bosque é todo de oiro e cinza
Uma festa se exalta em cada folha extinta:
Etna! em ti recebe a visita de Vénus
Poisando em tua lava os calcanhares ingénuos,
Se troa um sono triste onde se esvai a calma.
Tenho a rainha!
Ó castigo fatal!...
Minh'alma,
com meu corpo em torpor, de palavras vazia,
Sucumbe tarde à luz-silêncio do meio-dia:
Sem mais, vamos dormir, no olvido do desgosto,
sobre a areia jazendo; o vinho, como eu gosto
de abrir a boca ao astro eficaz que contém!

Grupo, adeus; eu vou olhar sombra que em ti devém.

APARIÇÃO

A Lua entristecida. Os serafins em choro,
A sonhar, de arco em punho, entre a calma das flores
Vaporosas, toravam de moribundas violas
Soluços, sons roçando plo azul das corolas.
- Era o dia feliz do teu primeiro beijo.
Num meditar que atormentava meu desejo,
Eu sorvia consciente esse perfume tiste
Que sem remorso e até sem amargor persiste
No viúvo coração que seus sonhos vindima.
Vagueava eu pois, fixando a calçada em ruína,
Quando, com sol nos teus vabelos, tu, na rua
E na tarde, apareceste com a graça que é tua
E a fada julguei ver, de chapéu refulgente,
Que em meu sono infantil de menino dolente
Perpassava, a deixar, das mãos mal apertadas,
Alvos flocos nevar de estrelas perfumadas.

BRINDE FÚNEBRE

Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!

Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a

Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.

PROSA

Hipérbole! desta memória
Triunfalmente não tens tido
Como erguer-te, hoje obscura história
Em livro de ferro vestido:

Pois instalo, pela ciência,
O hino de almas espirituais
Na obra de minha paciência,
Atlas, herbários e rituais.

Passeávamos nosso semblante
( Éramos dois, posso afirmar)
Nos encantos da cena adiante,
Ó irmã, para os teus reafirmar.

Turva-se a era de autoridade
Quando, sem motivo, se fala
Desse sul que a duplicidade
De nossa inconsciência assinala

Que, chão multíris, seu lugar,
Se existiu o deverão
Saber, não traz nome que ecoar
O ouro da trompa de Verão.

Sim, em uma ilha que o ar
Enche não de visões mas vista
Toda flor se abria invulgar
Sem em conversa ser revista.

Tais, imensas, que oportuna
Cada uma se preparou
Com lúcido entorno, lacuna
Que dos jardins a separou.

Idéias, glória do desejo,
Tudo em mim se exaltou de ver
As irídeas em cortejo
Surgir para o novo dever,

Mas seu olhar, terna e tranqüila,
Não o levou esta irmã
Além do sorriso e, a ouvi-la,
Cuido de meu antigo afã.

Oh! o Espírito de porfia
Saiba, quando estamos silentes,
Que a haste de mil lírios crescia
Por demais para nossas mentes

E não como a margem chora,
Se o jogo monótono mente
E quer a amplitude afora
Neste meu susto viridente

De ouvir todo o céu e a carta
Firmados em meus passos mil
Vezes, pela onda que se aparta,
Que esse país não existiu.

A criança do êxtase abdica
E douta já pelos caminhos
- Anastásio, é o que ela indica,
Criado p'ra eternos pergaminhos,

Antes de um túmulo rir em
Qualquer clima, seu antepassado,
Do nome - Pulquéria! - que tem,
Pelo alto gladíolo ocultado.

CANSADO DO REPOUSO AMARGO

Uma linha de azul fina e pálida traça
Um lago, sob o céu atrás da nuvem clara
Molha no vidro da água um dos cronos aduncos,
Junto a três grandes cílios de esmeralda, juncos.

O ACASO

Cai
a pluma
rítmico suspense do sinistro
nas espumas primordiais
de onde há pouco sobressaltara seu delírio a um cimo fenescido
pela neutralidade idêntica do abismo

A VENDEDORAS DE ROUPAS

O olho vivo com que vês
Até o seu conteúdo
Me aparta de minhas vestes
E como um deus vou desnudo

BRINDE

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, 

 

recife, 

 

estrela

não 

importa 

que há no fim de

um branco afã de nossa vela.  



























"Antes, ele havia levado o roteiro para Humberto Mauro, desejoso de que ele assumisse a direção, mas o diretor de Ganga Bruta parece ter achado a história muito hermética e sugeriu que o próprio Mário o realizasse", diz o biógrafo. Rodado em fins de 1930, Limite estreou em maio de 1931 no cine Capitólio. "Foi um fracasso, pois apenas uns poucos ficaram até o fim da fita", fala. "O terrível é que ele via a sua criação como algo fora do comum, acreditando que provocaria uma revolução, o que não ocorreu, deprimindo-o muito", assegura Castro. "Amigos, como Otávio de Faria, já o haviam advertido de que se tratava de algo para o verdadeiro público do cinema e não para as multidões, mas ele era um homem muito vaidoso e preferiu achar-se um incompreendido."
"Avaliando Limite como uma produção fantástica, não conseguiu aceitar a reação negativa que ia de encontro à sua expectativa: mandou a fita para o exterior e nunca mais voltou a vê-la após a première, também por causa do desparecimento das poucas cópias", conta. E quanto ao célebre mistério da real autoria do elogioso artigo Um Filme da América do Sul: de Sua Significação Mundial, que teria sido escrito pelo ídolo de Peixoto, Sergei Eisenstein? "Quem escreveu esse texto, na verdade, foi o próprio Mário, que confessou isso a um amigo muito próximo, que, por sua vez, me contou a história", revela Castro. "Há, aliás, outros artigos e críticas em que ele usou pseudônimos para comentar o seu filme, no espírito do `se não falam de minha obra, falo eu': o próprio Otávio de Faria o estimulava a isso, insistindo para que ele mostrasse esses pontos de vista sobre Limite", afirma o biógrafo (leia o artigo supostamente escrito por Eisenstein e sua história na última página). O filme passou a seguir a sua história e ser, como seu autor, transformado em lenda, em que sempre surgem novos vultos históricos - Orson Welles, Pudovkin, Charles Chaplin, entre tantos outros diretores geniais - que teriam visto (ou talvez tenham mesmo assistido a ele) a criação de Peixoto em algum momento. De certo apenas o esforço hercúleo de recuperação da fita, de fins da década de 50 até 1979, feito por Plínio Sussekind da Rocha e Saulo Pereira de Mello. "Poeta desde os tempos de Limite - Mário escreveu Mundéu, elogiado por Mário de Andrade -, ele se voltou para a literatura, a fim de trabalhar no que ele acreditava que seria a sua maior obra: O Inútil de Cada um (um grande texto, ainda que muito voltado para si), a que dedicou 40 anos de sua vida, com uma vocação proustiana", analisa o pesquisador. "Até esboçou vários roteiros, mas era sempre Limite que transparecia, o mesmo tema da solidão do homem, que só evitou em Salustre", nota. Peixoto até tentou voltar a filmar. "Em 1932, ele queria muito fazer Onde a Terra Acaba, em parceria com Carmen Santos - a prostituta de Limite -, mas por falta de recursos e brigas não o realizou: ela se queixava de que ele sempre mexia em tudo, buscava novos ângulos e queria ter a última palavra e o controle absoluto sobre toda a produção." "Ele era fanático pela perfeição e, mesmo que nunca chegasse a alcançá-la, sempre buscou algo superior à sua capacidade." O cineasta refugiou-se na Mansão do Morcego, mudou-se para Angra dos Reis e morreu, em 1992, muito adoentado, num apartamento em Copacabana. "Não demonstrava rancor contra o mundo e aceitava o seu destino com naturalidade, embora não se possa ter certeza disso, porque se escondia no casulo de sua obra, a única preocupação de sua existência", acredita Castro. "Ele tinha dois lados: um, introvertido, proustiano e solitário; e outro, extrovertido e encantador com seus amigos, coisas que só se descobre lendo seus diários e cartas." "Em especial o chamado Diário do Caderno Verde nº 2 foi escrito para que ele pudesse revelar-se por inteiro, descrevendo seus relacionamentos e seu homossexualismo, um assunto que não quero discutir a fundo, pois ainda há pessoas vivas", conta o biógrafo. "Ele dava vazão a seus impulsos, mas sempre com elegância e discrição, apenas nomeando as pessoas pelas iniciais ou, no caso das cartas, adotando pseudônimos (assinou várias como César ) para ele e para o destinatário", fala. "Mas é possível descobrir algumas identidades, como a de Waldemar Henrique, com quem, pode-se intuir, ele manteve uma relação de natureza bem profunda", diz. "Mas não esgotei o assunto e deixei de ir a fundo em certas questões, porque não me interessam fofocas", avisa. "É importante defender a sua memória, mas não adiantam defesas incondicionais de seu passado: é preciso publicar o seu romance, conhecer a fundo sua obra."

(Carlos Haag, p/F. de São Paulo)

 

O ÚTIL DE CADA UM

 

 

 

ONTOMENAGEIA

 

 

- por  

 

Otacílio Melgaço - 

 

 

M Á R I O  P E I X O T O

 

 

(Poemático compendieto 

O ÚTIL DE CADA UM

Por

OTACÍLIO MELGAÇO

 

APÊNDICE

Arleu, Mário e Joaquim Breves

Ao folhear a revista "Veja", edição de 12 de fevereiro de 1992, deparei com a notícia de falecimento do cineasta Mário Breves Peixoto, em 02 de fevereiro de 1992, considerado por muitos como "o pai do Cinema Brasileiro". Minha surpresa foi maior verificar que na fotografia estampada na revista, aparece o cineasta tendo ao fundo não muito visível, dado as dimensões da foto publicada, o quadro a óleo do Comendador Joaquim José de Souza Breves.

Durante muito tempo procurei incansavelmente por esta e por outras telas representativas dos Breves mais antigos.

Com o endereço do cineasta, no início do mês de setembro de 1992, , prosseguindo com minhas pesquisas sobre os Souza Breves, cheguei ao apartamento de Mário Breves Peixoto, onde fui muito bem recebido por seu afilhado Sr. Arleu.

Ao entrar naquele apartamento em Copacabana, logo no hall estava a tela do Comendador Joaquim Breves, sem a moldura, colocada em cima de um aparador .

O Sr. Arleu é uma pessoa muito afável, tendo 65 anos, mora com seu filho e nora no apartamento que foi de Mário Breves Peixoto. Deixando o hall de entrada dirigimo-nos para a sala principal, onde domina o ambiente uma tela de dimensões enormes, representando o cineasta ainda bastante jovem, com a moldura retirada da tela que estava no hall. Perguntando ao Sr. Arleu porque havia retirado a moldura do quadro do Comendador Joaquim Breves, ele me disse que o quadro precisava de restauração e a moldura ainda estava bastante bôa, apesar de já contar com mais de 160 anos (provavelmente foi pintada em 1829).

Ele me disse que a figura do Comendador Joaquim Breves representava muito para Mário Breves Peixoto, pois era um bem de família que deveria ser preservado. Entretanto, para Arleu a figura de maior importância, era a do próprio cineasta, por quem nutriu durante toda a vida grande carinho e admiração, e por isso tinha mandado pintar aquela tela, pagando um alto preço e usando a moldura do quadro de Joaquim Breves.

"Esta moldura, dizia-me, era toda em decapê em tons claros. Mandei envernizar pois não gostava do estilo."

A tela de Mário Peixoto foi pintada a partir de uma fotografia, que segundo Arleu, fôra tirada num dos inúmeros passeios que fizeram juntos. A pintora hábilmente, retratou-o sentado numa amurada de mármore, tendo ao fundo os jardins, com várias estátuas gregas, de seu sítio "O Morcêgo" na Ilha Grande.

O Sr. Arleu me contou diversas histórias sobre o cineasta:

"Mário foi um humanista, um artista incompreendido. Nunca foi lhe dado o devido valor."

Contou-me também que no início da doença, Mário foi obrigado a vender o sítio da Ilha Grande para poder honrar seus compromissos e se manter, uma vez que não possuía qualquer rendimento. Mário tinha investido uma fortuna considerável na reforma do "Morcêgo", estando o mesmo quando de sua venda repleto de obras de arte - mobiliário antigo, pratarias, telas, louças importadas - recebidas de herança, ou adquiridas posteriormente. Um membro da família Klabin é o atual dono desta riqueza.

Durante muitos anos, Mário Breves Peixoto ajudou com seu prestígio a cidade de Mangaratiba. Com certa mágoa, Arleu disse que fora montada uma Fundação em Mangaratiba que leva o seu nome. Funciona no solar do Sahy e presta um excelente trabalho, preservando um pouco daquele que foi durante décadas a mola propulsora de seu desenvolvimento – o Comendador Joaquim Breves.

"Estou passando todo o material que resta e pertencia a Mário, para o Walter (Walter Moreira Salles - do Unibanco), pois foi o único que acompanhou e prestou auxílio a Mário em sua desdita. Ele, Walter, ficou de montar uma sala, num prédio do Unibanco, que levaria o nome de Mário Breves Peixoto e reuniria todo o material de cinema, objetos pessoais e a extensa biblioteca, com volumes ainda inéditos de sua obra."

O Sr. Arleu relata que o cineasta havia retirado da Fazenda da Grama, em Passa-Três, várias telas, estátuas e algum mobiliário na tentativa de preservar o pouco que sobrara. A maior parte das telas, representando membros da família Breves, foram entregues ao Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ficando depositadas num porão daquela entidade por mais de 20 anos. Por pouco não se perdeu tudo. Mário foi avisado por um restaurador daquela entidade para que retirasse suas telas pois tudo estava se perdendo por falta de cuidados.

Arleu me disse que uma das telas, que representava uma Nossa Senhora com o Menino Jesus na mão, foi levada para a Ilha Grande, mas não era mais possível recuperá-la, pois a tinta estava se soltando, devido aos longos anos exposta à umidade. As outras telas foram doadas ou emprestadas para outras instituições.

Fizemos uma pequena pausa em nossa conversa para que eu pudesse fotografar ambas as telas. Notei que o retrato de Joaquim José de Souza encontra-se bastante deteriorado, atacado por fungos e cupins, e perfurada a tela em alguns pontos. Trata-se de uma tela pintada à óleo, sem data e assinatura, de mais ou menos 1,50 x 1,00 metros. Tirei algumas fotos da tela que se encontra na sala principal, e por causa da luminosidade, levamos a do Comendador para uma área externa para que pudéssemos fotografá-la melhor. Não sou profissional em fotografias, mas o resultado me pareceu bastante bom.

Retornando ao interior do apartamento, falamos também sobre o relacionamento da família com Mário:

..."Por seu comportamento esquisito, poucas vezes foi procurado. Uma vez seu irmão Octávio esteve com ele. Mário me apresentou dizendo mais tarde: ... é meu irmão porque temos o mesmo sangue. Vemo-nos de 20 em 20 anos.

Não achei estranho, esse comportamento "esquisito" relatado por Arleu, pois trata-se de uma característica comum aos Breves, isto é: o comportamento arredio e bizarro, chegando mesmo a extravagância, e a tendência ao isolamento. Continuando a relatar o Sr. Arleu :

"Mário foi um homem rico, de muitas posses. Quando sua avó, faleceu em Petrópolis, foi chamado para a partilha do palacete da Avenida Koeller. "

... não quero imóveis, pois para mim não tem valor nenhum. Me interesso apenas pelos objetos do interior da casa.

Foi lhe dado então a oportunidade de es

colher o que quizesse.

Como afirma a revista, "Limite", rodado no início dos anos 30 em Mangaratiba, com roteiro, direção e montagem do próprio Mário, entrou para a história do cinema brasileiro como uma de suas maiores lendas. Com ambições filosóficas de traduzir em imagens o naufrágio da existência humana, Limite foi considerado uma obra de gênio, que poucos viram ou conseguiram entender. Sua cadência fúnebre, com composições rígidas e enquadramentos estáticos, atrairam a atenção dos críticos da década de 30, que o classificaram como a melhor contribuição brasileira para o vanguardismo internacional da época. Uma das mais famosas histórias sobre o filme dizia que, depois de assisti-lo em Londres, em 1931, o cineasta russo Sergei Eisenstein escreveu um artigo no qual se derramava em elogios. Mais tarde, trocando o cinema pela literatura Mário escreve "O Inútil de Cada Um", seu único livro, publicado em 1984, reúne segundo o autor, as idéias de Limite.

Arleu, disse-me que existem mais 5 volumes da obra " O Inútil de Cada Um", que Mário pedia que fossem publicados após sua morte. Esperamos que o Sr. Walter Moreira Salles se interesse pela publicação, visto que, encontra-se em suas mãos os originais.

Existem controvérsias sobre a data de nascimento de Mário Peixoto Breves. Dizem alguns que, teria nascido em 1908 em Bruxelas, mas há quem diga também, que teria nascido em 1918 no Rio de Janeiro. Pelo que pude apurar junto ao seu afilhado Arleu, Mário nasceu em Bruxelas em 1908, e juntamente com seu irmão Octávio, estudaram na Europa durante muitos anos, na  Inglaterra e Suíça.

Tenho que ressaltar a dedicação do Sr. Arleu no trato das coisas do cineasta. Sua idéia de preservar a obra cinematográfica e literária de seu padrinho é comovente. Esperamos, sinceramente que tenha êxito, pois aquele que foi considerado como "Pai do Cinema Brasileiro", merece ser eternizado na memória do Estado do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, Setembro de 1992. 

(S.Breves)

 

Este sítio, hospedado em hpG, estava, outrora, em perfeito funcionamento. Seus dados desapareceram sem a mínima responsabilidade do autor. Aqui registro meu protesto aos que deveriam ter assumido as SUAS responsabilidades. Infelizmente, lavadas as mãos foram... Por tal razão, esta página esteve recentemente em REconstrução.